Buscar um destino para celebrar os 50 anos do Ricardo Bueno (meu marido, para quem não sabe) e surpreendê-lo, não foi tarefa das mais difíceis, até porque ele participou dessa decisão. Porém, precisava ser uma experiência marcante e inédita! Uma viagem que virou história nas próximas linhas. Uma experiência fascinante com a arquitetura, arte, religiosidade, cultura, artesanato, culinária e a mais rica das experiências: o povo mineiro, com seu acolhimento, simpatia e generosidade.

Nossa jornada começou em Ouro Preto com uma experiência nova pelo Airbnb, uma casa compartilhada. A Anna e o Chico, nos receberam com um café moído e passado na hora, fresquinho, adoçado com rapadura e com uma boa prosa.

Da riqueza de Ouro Preto, patrimônio mundial, poderia descrever longamente sobre suas ruas, ladeiras e da arquitetura barroca belíssima do século XVIII, mas muitas literaturas já fazem isso com mais propriedade. Vou me ater às experiências e sentimentos que tivemos, com esse cenário como pano de fundo e também alguns eventos que presenciamos.

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Caminhar, (quase escalar) por Ouro Preto, é voltar ao passado, nos tornando personagens de uma história muito importante para o Brasil, na qual homens e mulheres trabalharam bravamente e incansavelmente por uma corrida ao nobre metal e que deixaram um outro tesouro muito rico, esse que podemos hoje sentir e presenciar através de muitas marcas deixadas e restauradas.

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Embora existam marcas de várias origens, a riqueza arquitetônica sempre mexe e nos emociona, mais o esplendor dos detalhes num florão, num capitel, num beiral, nas guarnições, nas cornijas, nos portões e nas grades das sacadas em ferro forjado, com ornamentos que lembram verdadeiros rendados. O charme das portas e janelas, dos espelhos das fechaduras, dos revestimentos dos pisos, sem esquecer das técnicas construtivas de taipa e do adobe.

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O exemplar edifício da Casa dos Contos, que por si só já é uma aula, ainda nos surpreende com o extraordinário conteúdo sobre a Casa da Moeda. O acervo sobre a época da escravidão provoca uma mistura de indignação e tristeza ao vivenciar o espaço que um dia foi a senzala, com seus aparatos e ferramentais. No entanto, esse sentimento é amenizado e convertido por admiração da organização e atendimento da equipe nos dá. Pois, são treinados e preparados para nos alimentar de informações e conhecimento com cordialidade à disposição.

O mais antigo teatro em funcionamento na América Latina, a Casa da Ópera, nos surpreende pela simplicidade e aconchego, de mobiliário e ornamentos delicados, tamanha intimidade que ele nos provoca, ocupamos o palco, como parte da visita, com desprendimento e tranquilidade.

Surpresa também vem da natureza, cumprindo seu papel de nos encantar constantemente através das montanhas, que moldam as cidades históricas e os trajetos pela estrada real. A caminho de Mariana, a parada na ‘Mina da Passagem’, nos coloca em contato novamente com a natureza, dessa vez, com um cenário misterioso e insalubre, mas bem divertido com a descida do carrinho dos mineiros. As escavações estão ali, reais e majestosas, um cheiro de pedra úmida, com os lagos naturais azuis que o lençol freático tratou de formar.

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E como expressar em palavras a emoção de ver os doze profetas, do santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, esculpidos por Aleijadinho, uma obra que está instalada ali, feito rocha e montanha, guardiões que parecem resistentes ao tempo, numa pedra sabão que tem dias contados. Endossados pelo ‘Jardim dos Passos’, um conjunto de obras que deveriam ser visitados por todos, principalmente, os brasileiros. Orgulho desse artista.

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Como sempre defendo, tanto no trabalho, como na vida pessoal, a experiência só pode ser completa, quando mexe com todos os sentidos. Aliás,  me apropriando da expressão da organista Elisa Freixo, as “cores sonoras” pintadas pelo precioso órgão da Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, completou nossa experiência de forma extraordinária.

O que dizer sobre um concerto, dentro de uma igreja, uma explanação belíssima com uma profundidade cultural e intelectual indiscutível, complementando nossa experiência com a arquitetura? A absorção foi plena, tocante e a sutileza do residual deixado pela Elisa: “apenas o restauro físico não é o bastante para conduzir uma vivência a determinada época, para ser completa é necessário o restauro do acervo sonoro”. Bravo, bravíssimo!

A Maria Fumaça nos levou a São João Del-Rei, mais uma vez viajamos no tempo em vagões de madeira, com bancos reversíveis, lentamente avançando por uma paisagem bucólica, que em todo trajeto alguém acenava,  ao som da buzina romântica e da fumaça desenhando o céu.

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A cidade de Tiradentes, com seu charme, suas edificações, sua gastronomia, sua gentileza, convida ao bate-papo, à contemplação, ao descanso, ao relaxamento, à celebração da vida. Lugar do tempo literal, lento, desbravador, do andar solto e de mãos dadas, da cerveja artesanal, do pastel de angu e do beijo na boca. Finalizar nosso roteiro em Tiradentes foi fechar com chave de ouro, foi uma experiência em todos e com todos os sentidos, adorável e inesquecível. Viajar só reforça a ideia de como nos tornamos maiores e melhores com novos pensamentos, sentimentos e inspirações. Em cada destino uma nova história, em cada cultura e arquitetura, a certeza que escolhi a profissão certa.

Voltamos culturalmente e profundamente marcados por uma experiência inédita e na certeza que retornaremos muitas e muitas vezes. Fernando Pessoa diria que “Navegar é preciso”, eu complemento afirmando que “viajar também”.