“Vivemos num tempo de mudança. Hoje a mobilidade se tornou praticamente uma regra. O movimento se sobrepõe ao repouso. A circulação é mais criadora que a produção. Os homens mudam de lugar, como turistas ou como imigrantes. Mas também os produtos, as mercadorias, as imagens, as ideias. Tudo voa.”  Milton Santos

Se Conceito é uma ideia que se expressa daquilo que se aprende do objeto e se dá quando ao conceber o pensamento nos referimos intelectualmente através de um sinal imaterial, materializar se torna um dos maiores desafios para o ser humano.

Reproduzimos matéria e material conceituados a partir de referências que encontramos na pluralidade e diversidade do mundo em todas suas instâncias e dimensões. Para o universo da plástica e funcionalidade na qual estão inseridos a arquitetura, a arte e o design, são essas fontes que nos encharcam de inspiração em um jogo cíclico entre nossa mente e uma vastidão de elementos externos.

A mente humana é favorecida pelos recursos que nosso córtex frontal nos proporciona, nos cedendo a compreensão, a recordação, a memorização, um verdadeiro simulador de experiências. Mas como abastecê-lo e onde isso começa e onde termina?

No movimento! No processo da experiência. Não se cria sem circular, sem se dar, sem trocar, sem somar. Contextualizar culturalmente é percorrer a estreita relação entre eventos e situações que pertencem sim ao mesmo contexto, mas é acima de tudo levar em consideração  o ser humano, suas origens, seus costumes, ritos, mitos, símbolos e crenças. No ciclo das mentes esse contexto é decisivo, pois quando ocorre uma mudança na essência, surge uma explosão de criatividade e inovação, surgindo os grandes projetos.

Vou fazer uma menção a um incrível professor que tive o prazer de conhecer recentemente na pós-graduação: Rodrigo Villalba. Além de discorrer sobre antropologia com muito domínio e fluidez, foi a pessoa que me apresentou uma definição de ser humano da forma mais lógica e verdadeira: nós somos um nó, um conjunto de influências diversas, o ponto de encontro de tudo que cruzou pelo meu eu. Antes de ser um EU, éramos um NÓS, somos um NÓ!

“Essa definição é um paradoxo da nossa sociedade, achamos que buscamos liberdade e individualidade, mas dependemos diretamente do outro, pois somos um nó resultante do encontro de nós”, explica Rodrigo.

“Antes de ser um EU, éramos um NÓS, somos um NÓ!”. Gostei muito disso. Gostei ao ponto de ficar refletindo e imaginando inúmeras possibilidades que essa frase pode representar na mente de cada um. Até me atrevo em complementá-la dizendo que nós, seres humanos, somos grandes conexões. Que necessariamente estamos (ou deveríamos) estar conectados uns com os outros sempre.  Ajudando. Somando. Co-criando.

Quando falamos de inspirações advindas das viagens, do universo do design e da arquitetura, isso também é muito forte. Nesta área de atuação com a qual me identifico e me apaixono cada vez mais, eu percebo o quanto as inteligências multidisciplinares se complementam entre si. Vejo isso acontecer lá na BUENO o tempo todo. Nessas criações e co-criações que surgem as melhores ideias, os melhores projetos.

Gostaria de concluir esse artigo relacionando a importância da bagagem cultural com tudo que falei até agora. Percebam que quando viajamos, conhecemos pessoas, comidas, paisagens, histórias, culturas diferentes. Isso faz com que voltemos mais ricos. O mesmo acontece quando conversamos com novas pessoas e escutamos as suas histórias (ou ainda),  passamos a fazer parte delas. As pessoas, assim como as viagens, nos agregam. Na vida pessoal ou no trabalho, nós precisamos de gente. Quanto mais nos movimentamos, quanto mais vivemos, mais teremos para trocar e compartilhar.  A vida é feita disso. Pessoas, inspirações e movimentos. A arquitetura também.

Leila Bueno é arquiteta e sócia-diretora comercial na empresa BUENO Arquitetura Cenográfica