“O arquiteto transforma solicitações funcionais, sociais, simbólicas, materiais e contextuais em um projeto que por fim se materializa em formas e ainda prevê os usos e experiências das pessoas em relação aos espaços materializados”.

Josep Maria Montaner

Espaços materializados são relacionados com o tempo de vida, de permanência e de existência e pelas experiências que propiciaram. Na arquitetura efêmera, a relação tempo está diretamente ligada à experiência. Fisicamente pretende impor limites de duração, mas emocionalmente, propõe e se dispõe a ser perene.

Não é possível desatrelar o efêmero da experiência e com ela a descoberta do novo através das sensações e emoções, está intrínseco e andam todos juntos. Para John Dewey, a experiência é aquilo que se vive profundamente e na sua forma vital, representa um esforço para mudar o que é dado, uma projeção rumo ao desconhecido, uma marcha em direção ao incerto, ao futuro.

Até a revolução agrícola, a forma de ocupação na vida humana era totalmente efêmera, a busca por alimento gerava uma permanência com prazo de validade. Essa busca nos trouxe até aqui, mas essencialmente a efemeridade nos pertence, já que somos seres em constante busca pelo descobrimento.

Essa ênfase na descoberta, no novo e na experiência culminaram em ocupações com tempo limitado também no mundo corporativo. O exemplo mais expressivo são os eventos presenciais. Tornaram-se pontos de encontro focados na vivência, no conteúdo, no networking, mas essencialmente na experiência. Experiência essa, que estabeleceu de forma pragmática o uso da arquitetura efêmera e cenográfica nas ocupações físicas . Que grande encontro! A construção através da arquitetura efêmera com a ocupação do live marketing. Genial. Junta-se a isso a interatividade, a tecnologia e a tematização lúdica, a personificação da marca, pronto! Está formada a circunstância mais favorável para o brand se apropriar e permanecer perene na cabeça de seres humaninhos tão ocupados com a avalanche de informações diárias.

Ocupar com a experiência, ocupar com vivência, viver a experiência , viver a marca, pegar tudo isso e provocar sensações para que algum resíduo permaneça: uma fórmula assertiva que a área de eventos se apropriou. Porém, a complexidade na evolução do pensamento, os movimentos e fluxos necessários para se chegar a determinados resultados e o repertório disponibilizado a cada projeto tem um nome: Arquitetura! E precisam ser ativamente percebidos, valorizados e apropriados. A arquitetura é uma ciência e nela está contida a arquitetura efêmera.

Temos desenvolvido ferramentas na BUENO Arquitetura Cenográfica, para a multiplicação do conhecimento, fomentando a discussão sobre a importância da arquitetura efêmera no mundo acadêmico, pois essa disciplina quase que inexiste nas universidades. Como arquiteta e presidente da ABRAFEC (Associação Brasileira de Cenografia) e atuante na área de eventos, sou defensora na busca por definições e regulamentações e acho fundamental que as empresas de arquitetura efêmera, se posicionem no mercado como tal. Já que temos o CAU como orgão regulamentador, recolhemos RRT a cada projeto e principalmente somos acionados como recurso principal na sistematização e implantação dos eventos.

Os arquitetos na atuação com a efemeridade, assim como na arquitetura convencional, fazem projetos complexos, desenvolvendo sobretudo pensamentos que alcancem os usuários e participantes do evento, com ocupações ricas capazes de prestigiar aspectos sociais, culturais, ambientais e discursivos, tão efetivamente eficiente no papel, quanto na entrega dessas ocupações.

Tudo isso sintetiza a grande responsabilidade da arquitetura efêmera e enaltecê-la é acima de tudo, contribuir na valorização, respeito e admiração aos profissionais que atuam nesse mercado e aos que estão por vir.

leila

Leila Bueno é arquiteta, sócia-diretora comercial na empresa BUENO Arquitetura Cenográfica e presidente na ABRAFEC (Associação Brasileira de Cenografia)*